{"id":436,"date":"2017-01-31T02:49:22","date_gmt":"2017-01-31T02:49:22","guid":{"rendered":"http:\/\/novo.not-wolf.com\/index.php\/2017\/01\/31\/2017-1-31-porque-custa-deixar-de-fumar\/"},"modified":"2020-07-03T19:08:52","modified_gmt":"2020-07-03T19:08:52","slug":"2017-1-31-porque-custa-deixar-de-fumar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/not-wolf.com\/index.php\/2017\/01\/31\/2017-1-31-porque-custa-deixar-de-fumar\/","title":{"rendered":"deixar de fumar"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 aqueles momentos sem dono ou piedade de saber o que fazer a seguir. Enquanto nada ocorre, fuma-se um cigarro e pensa-se no fumo que entra e sai ou, nem se pensa nele, s\u00f3 entra e sai. Vem a respira\u00e7\u00e3o materializada como s\u00f3 o inverno consegue e h\u00e1, ent\u00e3o, um inverno ininterrupto at\u00e9 \u00e0 beata, sem o frio pag\u00e3o de estar em p\u00e9, em frente ao mar, vestido de sol.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o momento que antecipa uma tarefa indesejada ou pouco querida, uma inquieta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sabe o que fazer com as m\u00e3os, que quer fugir dali, da frente do que h\u00e1-de encarar-se. Uma pausa na obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O cigarro \u00e9 rebelde. N\u00e3o quer fazer, caga-se na biologia e na farm\u00e1cia, no dinheiro e no f\u00f4lego. \u00c9 propriet\u00e1rio das suas pr\u00f3prias sedu\u00e7\u00f5es, sacode para as costas a juventude. O cigarro envelhece mais do que amadurece mas \u00e9 prelo das ideias e repete-as, conversa-as, desfia-as e o \u00faltimo nunca ser\u00e1 t\u00e3o bom quanto o primeiro.<\/p>\n<p>Mais que o tabaco, s\u00e3o os fumos. Quantos fumos diferentes fazem de n\u00f3s seres alter-conscientes, de porta fechada, o fumo que embate nos dentes e sobe ao nariz. O tabaco \u00e9 quarta-feira de cinzas, sempre. \u00c9 da festa que acabou e da que ali come\u00e7a. \u00c9 dois dedos de conversa, \u00e9 dois dedos de promessa, entre dois dedos de camuflagem et\u00e9rea. Tanto de c\u00e1 para l\u00e1 como de l\u00e1 para c\u00e1, fumo \u00e9 mat\u00e9ria do mist\u00e9rio, do imp\u00e9rio, do alheamento &#8211; j\u00e1 que ficar por c\u00e1 \u00e9 carregar de descontentamento os perfeccionistas.<\/p>\n<p>Mesmo os rudes de jeito s\u00e3o ex\u00edmios pregadores de cortinas a arder os olhos. Pouco querem saber de si, oferecem-se \u00e0 secura de uma velhice antecipada por essa cara inquieta.<\/p>\n<p>Os cigarros s\u00e3o da gente que n\u00e3o espera. Junto com um acabado de acender vem o autocarro, a vez nas finan\u00e7as, o telefonema aguardado.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s de um cigarro est\u00e1 uma boca aberta, inconsol\u00e1vel, a embeber-se em massas a\u00e9reas de perfumes desolados, mal olhados, sem destila\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil deixar de fumar porque sou uma solit\u00e1ria e um cigarro nunca vinha s\u00f3. Nas salas do mundo, sa\u00eda com ele. Dan\u00e7\u00e1mos juntos e at\u00e9 acab\u00e1mos nas camas dos amantes exaustos, a ir ao tecto em golfadas generosas.<\/p>\n<p>Deixar de fumar n\u00e3o \u00e9 uma prioridade racional, \u00e9 medo da doen\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 um hino de coragem ainda que seja uma liberdade abdicar dele. H\u00e1 tanta liberdade na abdica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o me contenho e apetece-me saltar-lhe \u00e0s ventas. A liberdade n\u00e3o tem vergonha de excluir os v\u00edcios, de matar a inutilidade e, sobretudo, de eleger a sobreviv\u00eancia bem gerida como o \u00faltimo reduto de uma intelig\u00eancia feliz.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil deixar de fumar porque muito tempo fui infeliz e preciso de tempo para pensar nisso. Fico contente por subir a D. Jo\u00e3o IV sem p\u00e2nico respirat\u00f3rio, nem latejos coron\u00e1rios nas t\u00eamporas, n\u00e3o sendo j\u00e1&nbsp;grande amostra de inclina\u00e7\u00e3o. Se pudesse ter tudo, estancaria no topo para fumar um cigarro junto da Cooperativa dos Pedreiros.<\/p>\n<p>Os cigarros das manh\u00e3s s\u00e3o os piores para os conservadores biol\u00f3gicos e os melhores para quem quer ausentar-se dessa linha de montagem da sa\u00fade &#8211; o garante de servirmos mais tempo.<\/p>\n<p>O cigarro, at\u00e9 na recusa da serventia, \u00e9 rebelde, mas as dores de carregar uma botija de oxig\u00e9nio acordam-me a pregui\u00e7a de acender mais um, aquele que arderia agora sem pensar duas vezes. O cigarro n\u00e3o \u00e9 prudente nem lhe cabe tal fado.<\/p>\n<p>Menos prudente ainda \u00e9 adicionar-lhe del\u00edrio ou elasticidade imaginativa que \u00e9 como quem diz, estupefacientes. E ficar deveras estupefacto ao entrar dentro de si numa porta mais.<\/p>\n<p>Um cigarro, era o que precisava agora para mitigar a irrita\u00e7\u00e3o crescente de ter algu\u00e9m em casa que, por ser inverno e as portas encarcerarem o calor poss\u00edvel em cada divis\u00e3o, vai de porta em porta nas pequenas tarefas e o barulho baralha-me as ideias que um cigarro decerto trancaria. Mas n\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 cigarro que me ajude a ignorar um convite prestes a &nbsp;arrepender-se, &#8211; para mais tendo-se antecipado uma hora ao previsto &#8211;&nbsp;cujo telefone toca como um cigarro mal apagado, a que se tem de voltar e afundar no cinzeiro com mais veem\u00eancia, sob os dedos que n\u00e3o querem a parte mais crist\u00e3 da vida: a que n\u00e3o se fuma e que dizem, em altos fogos, saber a caramelo.<\/p>\n<p>Deixar de fumar \u00e9 dif\u00edcil porque, \u00e0 falta de aspira\u00e7\u00f5es tinha-se expira\u00e7\u00f5es e inspira\u00e7\u00f5es que demoravam quatro minutos. E mesmo os cigarros mais amargos, do fim da vida de fumadora, punham-me a pensar no pr\u00f3ximo e como seria bom se fosse mais calmo, menos tenso, menos compassado pela escapadela do escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Fumar \u00e9 dif\u00edcil porque tenho tido pouco respeito \u00e0 vida. N\u00e3o porque a vida me fa\u00e7a desfeita mas porque sei ser t\u00e3o finita que me decido por ela depois de acender um lume, um pequeno lume entre m\u00e3os que passo para a boca e depois para aqui dentro.<\/p>\n<p>Fumar \u00e9 f\u00e1cil porque tenho um poste port\u00e1til que me faz sombra, onde me escondo, onde me protejo, onde me entretenho nas vis\u00f5es menos gerais, mais recortadas sobre o desejo.<\/p>\n<p>Fumar fazia-me pensar como tinha tempo para gastar sem fazer nada e, quando ocupada, fumava na mesma para diminuir a import\u00e2ncia da ocupa\u00e7\u00e3o. Podia fumar fazendo de tudo, mesmo as muitas coisas que se podem fazer sem fumar.<\/p>\n<p>Fumar \u00e9 individualista, \u00e9 dos que n\u00e3o querem saber se o ar \u00e9 matreiro porque de escape ou cinzeiro.<\/p>\n<p>Esquecer fumar \u00e9 dif\u00edcil porque n\u00e3o h\u00e1 poesia nem cinema que se leve a s\u00e9rio sem a sua imagem desleixada de eternidade.<\/p>\n<p>Fumar \u00e9 dif\u00edcil porque agrava a voz e poucos sabem como \u00e9 poss\u00edvel cair de amores por uma voz na r\u00e1dio, muito provavelmente de um fumador convicto, escondido atr\u00e1s de pigarros e tosses menores. Tossir d\u00e1 solavancos \u00e0 respira\u00e7\u00e3o que, sendo de si t\u00e3o natural, fumar a torna mais humana, mais real, mais errada, mais pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Fumar \u00e9 uma merda porque deixar \u00e9 uma grande bosta.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 porque seja bom, \u00e9 porque n\u00e3o tem moral nem fim. \u00c9 um v\u00edcio dentro de mim.<\/p>\n<p>A contri\u00e7\u00e3o somente perante a gr\u00e1vida fumadora, que sonega em segredo a liberdade de n\u00e3o querer ser do ser independente. Os meus problemas s\u00e3o muito meus. Deixar de fumar \u00e9 dif\u00edcil porque n\u00e3o estou gr\u00e1vida.<\/p>\n<p>Quantas can\u00e7\u00f5es purguei nas m\u00e3os, quantos corpos cil\u00edndricos me sa\u00edram dos dedos sem nunca ter feito maquetes nem escultura. Perfeitos t\u00faneis de olvido e maresia empacotada numa mortalha. Quantas vezes usei filtros sem que nunca mo tivessem exigido e quantas palavras foram travadas por eles na hora de desferir um mal sinistro.<\/p>\n<p>Mas subo a Fern\u00e3o Magalh\u00e3es e converti-me a um palito. Uma m\u00famia, um f\u00f3ssil, o m\u00ednimo que se pode ter da mem\u00f3ria f\u00edsica de fumar. Pelo menos n\u00e3o \u00e9 um pequeno bast\u00e3o de pl\u00e1stico usado para mexer os caf\u00e9s da modernidade. \u00c9 um s\u00f3lido cilindro agu\u00e7ado, sem express\u00e3o a\u00e9rea e que bate boca, ensopado de baga\u00e7o.<\/p>\n<p>Nem sei como se l\u00ea&nbsp;sem fumar e quero eu voltar a estudar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cigarro \u00e9 rebelde. 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