{"id":2740,"date":"2023-07-15T16:13:00","date_gmt":"2023-07-15T16:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/not-wolf.com\/?p=2740"},"modified":"2024-11-15T16:16:39","modified_gmt":"2024-11-15T16:16:39","slug":"voz-off","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/not-wolf.com\/pt\/index.php\/2023\/07\/15\/voz-off\/","title":{"rendered":"Voz-Off"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\"><a href=\"https:\/\/designrr.page\/?h=7022&amp;id=204196&amp;token=3966815736\">em <em>Querer Queer<\/em>, as7bonecas<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Persiste. \u00c9 s\u00f3 mais uma tentativa. Acaba j\u00e1 tudo. N\u00e3o mexas uma palha. Aceita que h\u00e1s-de trazer o mesmo ar aborrecido, com que sa\u00edste, de volta a casa e que \u00e9 um rev\u00e9s menor, ins\u00edpido \u2014 \u00e9 regressar igual, sem perder nada ou talvez apenas o dinheiro da viagem e do que beberes. N\u00e3o comas. Almo\u00e7aste tarde e ainda ficas com alguma coisa nos dentes. Tens uma facilidade invej\u00e1vel para te embara\u00e7ar com pouco e basta uma azeitona a que n\u00e3o resistes para te estragar o sorriso. Est\u00e1 estudado que a esmagadora maioria das pessoas se abst\u00e9m de anunciar esse infort\u00fanio que \u00e9 a comida nos dentes quando exibes um sorriso.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e1 meia volta, v\u00eas o teu rabo? \u00c9 menos cimeiro que h\u00e1 dois anos e ser\u00e1 menos ainda daqui a tr\u00eas, dez. Paci\u00eancia. \u00c9 o tempo e a tua forma de luta contra ele, neste momento, \u00e9 o atraso. Onde puseste as chaves, outra vez? Estas cal\u00e7as n\u00e3o. Troca. Apareces mais tarde mas sem uma r\u00e9stia de vergonha, sem um gr\u00e3o de fragilidade, tudo oferecido pelo que escolheres vestir a par com a vontade de te mostrar e do orgulho de ainda te apreciares apesar de mim, voz de quarto escuro que nem quando dormes se cala. Ouvindo-me ou n\u00e3o, prossegues. Sou a tua voz interior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tu queres viver esta aventura e comprometeste-te com a mo\u00e7a. \u00c9s mulher de palavra mesmo que, j\u00e1 t\u00e3o perto do encontro, fiques em sentido, em flecha. As borboletas voam e os p\u00e1ssaros levantam em bando pressentindo o perigo de tanta como\u00e7\u00e3o. Alerta como uma amazona. S\u00f3 tu saber\u00e1s como abrir a porta daquele caf\u00e9 com o triunfo de hero\u00edna montada num cavalo de pedra. Ningu\u00e9m poder\u00e1 desconfiar que vais tombando do dorso do teu esp\u00edrito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tu j\u00e1 fizeste muito, s\u00f3 que ningu\u00e9m sabe.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda n\u00e3o escreveram sobre ti para que se saiba. Tu, sim, escreveste, embora ningu\u00e9m te tenha lido e continues consternada com o anonimato, como se fosses de uma grandeza para a qual o mundo \u00e9 um sapato apertado ou umas cal\u00e7as que te dividem o intestino a meio, por fora, numa fronteira marcada \u201cna cintura!. Mas essas n\u00e3o s\u00e3o as cal\u00e7as de hoje. Hoje vais solta, vais leve, resfolega. Hoje marimbas-te para o que n\u00e3o foi e poderia ter sido. Calcorreia o teu arm\u00e1rio s\u00f3 com as pontas dos dedos enquanto fazes a equa\u00e7\u00e3o em que aquela camisola de malha, ao quadrado, sobre camisa engomada dividida pelo laranja da saia resulta num corpo quente encostado ao teu. \u00c9 isso que queres, um encosto quente? N\u00e3o te bastariam os gatos na cama?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sabes que \u00e9 inteligente e divertida, n\u00e3o queres saber o seu emprego e r\u00f3is-te para conhecer como se mexe, como leva o cabelo ao s\u00edtio dele, se roda o p\u00e9 do copo, se \u00e9 s\u00f4frega, se olha nos teus olhos sem fugir, se sabe esperar j\u00e1 que est\u00e1s atrasada com tanta matem\u00e1tica. O teu pai esbofetear-te-ia por esta ideia. Sorte \u00e9 ele estar quase t\u00e3o morto quanto longe e podes dan\u00e7ar sobre uma campa que j\u00e1 c\u00e1 tardava. Hoje enterras a fobia dos amores infrut\u00edferos, do que te ensinaram ser v\u00edcio. Ser\u00e1 que te podes rir do pai agora que falhaste todos os homens bons e maus que ele nem imaginou? N\u00e3o abandonaste o lar por causa disto: sabias gostar de tudo menos de ti.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enfia as botas, est\u00e1 calada. Nem estas paredes te ouvem. Opera tudo por dentro, discretamente. Por ora sabes os segredos de duas geografias e \u00e9s empurrada com evid\u00eancia para uma. Trilha a fralda da camisa, encolhe a barriga, puxa a camisa um pouco para fora. Esquece a camisola, vai com o casaco aberto. Ser\u00e1 que vais ceg\u00e1-la com o teu cora\u00e7\u00e3o a arder de mist\u00e9rio?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 estiveste neste lugar mas com homens que s\u00e3o coisa f\u00e1cil de apanhar e agradar e d\u00e3o filhos. Ser\u00e1 que, por se encerrar a tua capacidade reprodutiva, o teu pragmatismo utilit\u00e1rio redigiu a alforria da tua sexualidade? Ser\u00e3o as mulheres que beijaste o t\u00fanel secreto para esta? At\u00e9 para o desamor geral est\u00e1s preparada e tens a sorte de ser mais f\u00e1cil sair debaixo dessa pedra no peito agora. H\u00e1 muitos que continuar\u00e3o a gostar de ti, n\u00e3o temas o abandono. Aquele que te ensinou essa miser\u00e1vel palavra est\u00e1 longe, relembro-te, distante como um ilh\u00e9u novo e portanto poder\u00e1s habit\u00e1-lo como bem entenderes. Querias ir para uma ilha aprender poesia com elas e parece tarde. Ou n\u00e3o, nunca \u00e9 tarde e, por\u00e9m, est\u00e1s atrasada. J\u00e1 nem cavalgando chegas ao caf\u00e9 a tempo. Ainda bem que j\u00e1 n\u00e3o vamos de cavalo de pedra. Se ela n\u00e3o gostar de ti, tenta resistir. Por alto, devem existir uns tr\u00eas bili\u00f5es de pessoas de quem poderias gostar e nem sabem que existes e diz-se que a indiferen\u00e7a \u00e9 o sentimento que mais d\u00f3i \u2014 pergunta ao teu desejo e confirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha o espelho e percorre a tua cara. D\u00e1 folga \u00e0 no\u00e7\u00e3o de que a decad\u00eancia se vem sedimentando na tua pele e de tanto rir e chorar os teus olhos s\u00e3o s\u00f3is pequenos, de raio curto, para onde esperas que ela olhe sem fugir. Alto! Tamb\u00e9m tu n\u00e3o deves querer fugir dos seus olhos. N\u00e3o te forces \u00e0 ilus\u00e3o de cumprir uma possibilidade esperada por outrem. N\u00e3o te percas no <em>faire plaisir <\/em>digno de governanta que nada exige para si al\u00e9m do reconhecimento dos seus servi\u00e7os. Por uma vez, n\u00e3o estejas ao servi\u00e7o de ideias que te apertam. Sai e inventa-te.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1s com a impress\u00e3o de que a rua sente a tua felicidade ansiosa. Ter\u00e1 sido por isso que te abriram a passagem enquanto te dirigias \u00e0 esta\u00e7\u00e3o. Sorris com esgares de tonta entre as notas desta m\u00fasica, \u00e0 espera que ela esteja a tamboril\u00e1-la na mesa enquanto a trauteias a caminho. Espero que o teu compromisso contigo n\u00e3o peque por tardio. Espero que finalmente compreendas uma curiosidade t\u00e3o futura que chegou o dia depois de umas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Espero que reconhe\u00e7as a mulher que desejas ver e que te espera no caf\u00e9. O caf\u00e9 tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o grande para que percas o horizonte. Ainda nem a viste e j\u00e1 te apetece lan\u00e7ar os bra\u00e7os em seu torno, cheirar o que a\u00ed couber e coligir passeios a duas. O tempo das novas cartas em portugu\u00eas, curtas e el\u00e9ctricas, tem agora um destino e \u00e9 o caf\u00e9 onde a luz da tarde \u00e9 quente e as part\u00edculas de p\u00f3 douram a entrada. Faz parecer que um conto de fadas \u00e9 um s\u00edtio onde o espanador est\u00e1 de f\u00e9rias mas sigamos, sem achaques nem de governanta nem de dama aflita. Continua a controlar a respira\u00e7\u00e3o e passa a porta: chegaste. Agora que a v\u00eas, acalma-te e dirige-te a ela. Est\u00e1 entretida com o telefone, provavelmente a distrair os minutos a que faltas na cadeira \u00e0 sua frente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Clareio como o fim de uma tempestade. Arrasto a cadeira de mansinho e ela levanta os olhos \u2014 n\u00e3o fogem. Fixadas uma na outra sinto-lhe a camisola de l\u00e3, cheira a lavanda e a sab\u00e3o de Marselha. Os meus olhos fecham por uns momentos enquanto me agrade\u00e7o por ter sa\u00eddo de casa, sobretudo do quarto escuro onde uma voz me adia. Sento-me, perguntamo-nos como estamos, pe\u00e7o desculpa pelo meu atraso sem fingimentos. Finalmente estou ali, prostrada perante a evid\u00eancia de tanta familiaridade. Discutimos duas ou tr\u00eas trivialidades sobre o espa\u00e7o e agarramos a ementa. N\u00e3o pedimos o mesmo e aprecio as escolhas com inten\u00e7\u00e3o de partilhar o que n\u00e3o se experimentou ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Desculpa mas reparei que tens <em>baton <\/em>nos dentes, entre o incisivo e o canino.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem embara\u00e7o, apaguei com o dedo a intrusa mancha e, como uma princesa a quem deram um condado, sonho com cabelos compridos no ralo da minha banheira e pe\u00e7o azeitonas para ajudar o vinho. Nunca este rabo foi t\u00e3o confort\u00e1vel e iremos embora sob a decis\u00e3o do acaso. Ela n\u00e3o roda o copo: endireita a toalha e dobra-a entre os dedos, alternadamente. Tem o cabelo longo e solto, inclina o rosto sobre um lado para continuar a ver-me com toda a amplitude. As borboletas provam o n\u00e9ctar e os p\u00e1ssaros est\u00e3o a sul.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>em Querer Queer, as7bonecas Persiste. \u00c9 s\u00f3 mais uma tentativa. Acaba j\u00e1 tudo. N\u00e3o mexas uma palha. 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